Tabela – A Odisséia Que Foi Pro Espaço – Parte 2

 Esta historinha é sobre as famosas tabelas de ilustração e foi escrita em finais de 2003.

De lá pra cá, algumas partes da ficção se tornaram realidade. Outras, não. De qualquer forma, o mundo e a profissão de ilustrador mudaram bastante. Leia o começo da história…

tabela ilustração 2

Capítulo II

A porta do elevador se abre. Você atravessa uma multidão de caras cheios de piercings nas pálpebras e pastinhas de portfólio na mão, corredor afora. Você tem nome. Todos te olham admirados. Chega na sala do editor de arte, que com a tabela na mão, um olhar autista-hipnótico e voz metálica,
começa recitar o antiquíssimo mantra de contenção de custos, redução nas tabelas, saturação do mercado por sobrinhos, promessas de muitos trabalhos no futuro e blá,blá,blá…blá,blá,blá…blá,blá,blá…
Sua memória vai regredindo no tempo…você desenhando pra namorada… você copiando gibís…
você riscando as paredes de casa com o baton da mamãe… você criança, na praia, com um punhado de areia numa das mãozinhas… o vento leva… passa a areia para a outra mãozinha e novamente a brisa leva mais um pouco… você chorando, vendo aquele montão de areia à sua volta e não sobrando nada nas suas mãozinhas… sua cabeça e tudo à sua volta começa a girar…girar…girar…

Capítulo III

Dez.2004:

Você acorda e não sabe bem onde está. É tudo muito confuso. Por sorte ainda está vivo, graças aos anticorpos administrados pelos SIBianos. Tem uma vaga lembrança do buraco negro havido em meados do ano, quando o evento de lançamento do Corel Pau! 38.6 foi na mesma semana da chegada ao Brasil dos “BigStocks Photo Illustrations Free”.
Sim…você está se lembrando…
Toda aquela imensa massa de clip-arts compactados em 60 DVD’s do pacote Corel Pau! se misturou a uma quantidade colossal de ilustrações fuleiras dos “BigStocks Photo Illustrations Free” e tudo entrou em colapso.
Os que “viraram” ilustradores nas noites de lua cheia formaram tribos miseráveis e famélicas, chamadas de “kobrapôcos”. Na ânsia de migalhas, e armados de perigosíssimas flechas vetoriais, se juntaram com os vampiros dos “BigStocks Free”.
Os editores, que observavam tudo do alto de seus edifícios, abriram as comportas
e misturaram ilustradores, fotógrafos, escritores, fotolitos, jornaleiros e manicures, num mesmo saco de flyng cats nas negociações, tabelando a tudo e a todos. A Liga da Justiça de Direitos Autorais, enfraquecida pela desunião de seus para-quedistas, que estavam espalhados pelo espaço cósmico afora em diversas entidades classistas, nada pôde fazer.
Tal situação gerou um grande número de grupinhos insatisfeitos que, se engalfinhando numa colossal bola de matéria pútrida de egos intumescidos, colidiu com uma galáxia de contas a pagar.
A força da gravidade da situação foi atraindo as matérias editoriais, ilustrações, fotos, a tudo e a todos, caindo pelas tabelas, até o mercado se tornar um buraco negro, de onde a luz da criatividade não consegue mais escapar.

Epílogo…

Janeiro/2005:

Tudo tabelado, o Real foi abolido nas editoras, onde hoje reina a paz dos cemitérios e os preços das ilustrações, fotos e imagens em geral, são cotados em Quarks (*).
Stephen Hawking escreveu uma matéria sobre o assunto intitulada “Os Ilustradores Numa Latinha de Exame de Fezes”, mas a revista Vegetal Design se recusou a publicar.

The end.

Angelo Shuman

(*) Não confundir com o QuarkXPress, que é um programa de editoração. Os Quarks em questão são partículas elementares, sub-atômicas, de tamanho infinitesimal. Um próton, por exemplo. é formado por 3 quarks.

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