Orçamento de ilustração URGENTE! PRA AGORA E JÁ!

Se tem uma coisa importante com pedidos de orçamento de ilustração é NUNCA, JAMAIS! dar o valor logo de cara, sob pressão, mesmo que o art-buyer
diga que tem que ser AGORA e JÁ!
Nada disso; as chances de fazer besteira são enormes.
Pare, pense, pergunte, tenha todas as informações
e só retorne a ligação quando estiver seguro.

orcamento ilustração

Um pedido de orçamento de ilustração pode ser mais ou menos assim:

Terça-feira, 10:00 da manhã.

O art-buyer, cabelo molhado, chega na agência vindo da academia.

No dia anterior ele participou de reuniões com o cliente, com o VP de criação e com financeiro; se inteirou da verba, prazos e cronogramas do job.
É novo na agência e quer mostrar serviço. Conseguir um orçamento de ilustração abaixo de qualquer tabela vai ser o bicho! Além disso, ele está careca de orçar e contratar ilustradores, fotógrafos, fornecedores de todas as espécies, participou de cursos e seminários e oficinas de negociação no Brasil e no exterior, e tem à sua frente
dois blocos de anotações novinhos, uma dúzia de lápis apontados, uma calculadora e o livro “O NEGOCIADOR PIT-BULL”, que acabou de ler. Pois bem; ele acaba de conversar com um colega sobre o seminário sobre o curso de aperfeiçoamento que ambos estão fazendo: “Otimização de Custos e Restrições Orçamentárias – Como Esfolar o Fornecedor”.

Nosso negociador termina o cafezinho com tranqüilidade e liga para o ilustrador.

O ilustrador, meio gripado, leva um susto com o orçamento do dentista.
Está olhando para a tela do computador (que acabou de travar), enquanto pensa nas contas de luz, água, telefone e provedor (que estão vencidas), quando a mulher (que tá com a macaca), lembra que ele está atrasado e tem que levar a filha na escola,
pegar a sogra na rodoviária, levar o gato ao veterinário e passar no supermercado.
Ah! Também precisa passar no posto e pôr gasolina…
Ele corre para a garagem e vê um pneu murcho no carro e lembra que devia ter consertado o estepe, quando a mulher grita que o telefone está tocando e ela não é dez.
Ele corre para atender. O filho, de 4 anos, com uma garrafa de álcool
e um caixa de fósforos nas mãos, passa correndo atrás do gato.

Ao telefone, o art-buyer querendo um orçamento de ilustração AGORA e JÁ!

NE: Nenhum gato foi ferido ou maltratado durante a ilustração deste post.

Tabela – A Odisséia Que Foi Pro Espaço – Parte 2

 Esta historinha é sobre as famosas tabelas de ilustração e foi escrita em finais de 2003.

De lá pra cá, algumas partes da ficção se tornaram realidade. Outras, não. De qualquer forma, o mundo e a profissão de ilustrador mudaram bastante. Leia o começo da história…

tabela ilustração 2

Capítulo II

A porta do elevador se abre. Você atravessa uma multidão de caras cheios de piercings nas pálpebras e pastinhas de portfólio na mão, corredor afora. Você tem nome. Todos te olham admirados. Chega na sala do editor de arte, que com a tabela na mão, um olhar autista-hipnótico e voz metálica,
começa recitar o antiquíssimo mantra de contenção de custos, redução nas tabelas, saturação do mercado por sobrinhos, promessas de muitos trabalhos no futuro e blá,blá,blá…blá,blá,blá…blá,blá,blá…
Sua memória vai regredindo no tempo…você desenhando pra namorada… você copiando gibís…
você riscando as paredes de casa com o baton da mamãe… você criança, na praia, com um punhado de areia numa das mãozinhas… o vento leva… passa a areia para a outra mãozinha e novamente a brisa leva mais um pouco… você chorando, vendo aquele montão de areia à sua volta e não sobrando nada nas suas mãozinhas… sua cabeça e tudo à sua volta começa a girar…girar…girar…

Capítulo III

Dez.2004:

Você acorda e não sabe bem onde está. É tudo muito confuso. Por sorte ainda está vivo, graças aos anticorpos administrados pelos SIBianos. Tem uma vaga lembrança do buraco negro havido em meados do ano, quando o evento de lançamento do Corel Pau! 38.6 foi na mesma semana da chegada ao Brasil dos “BigStocks Photo Illustrations Free”.
Sim…você está se lembrando…
Toda aquela imensa massa de clip-arts compactados em 60 DVD’s do pacote Corel Pau! se misturou a uma quantidade colossal de ilustrações fuleiras dos “BigStocks Photo Illustrations Free” e tudo entrou em colapso.
Os que “viraram” ilustradores nas noites de lua cheia formaram tribos miseráveis e famélicas, chamadas de “kobrapôcos”. Na ânsia de migalhas, e armados de perigosíssimas flechas vetoriais, se juntaram com os vampiros dos “BigStocks Free”.
Os editores, que observavam tudo do alto de seus edifícios, abriram as comportas
e misturaram ilustradores, fotógrafos, escritores, fotolitos, jornaleiros e manicures, num mesmo saco de flyng cats nas negociações, tabelando a tudo e a todos. A Liga da Justiça de Direitos Autorais, enfraquecida pela desunião de seus para-quedistas, que estavam espalhados pelo espaço cósmico afora em diversas entidades classistas, nada pôde fazer.
Tal situação gerou um grande número de grupinhos insatisfeitos que, se engalfinhando numa colossal bola de matéria pútrida de egos intumescidos, colidiu com uma galáxia de contas a pagar.
A força da gravidade da situação foi atraindo as matérias editoriais, ilustrações, fotos, a tudo e a todos, caindo pelas tabelas, até o mercado se tornar um buraco negro, de onde a luz da criatividade não consegue mais escapar.

Epílogo…

Janeiro/2005:

Tudo tabelado, o Real foi abolido nas editoras, onde hoje reina a paz dos cemitérios e os preços das ilustrações, fotos e imagens em geral, são cotados em Quarks (*).
Stephen Hawking escreveu uma matéria sobre o assunto intitulada “Os Ilustradores Numa Latinha de Exame de Fezes”, mas a revista Vegetal Design se recusou a publicar.

The end.

Angelo Shuman

(*) Não confundir com o QuarkXPress, que é um programa de editoração. Os Quarks em questão são partículas elementares, sub-atômicas, de tamanho infinitesimal. Um próton, por exemplo. é formado por 3 quarks.

Tabela – A Odisséia Que Foi Pro Espaço – Parte 1

Esta historinha é sobre as famosas tabelas de ilustração e foi escrita em finais de 2003.

De lá pra cá, algumas partes da ficção se tornaram realidade. Outras, não. De qualquer forma, o mundo e a profissão de ilustrador mudaram bastante.

Por: Angelo Shuman

tabela ilustração1

Prólogo

Nov.2003:

Manhã primaveril.
O sol serpenteia seus raios por entre as copas das árvores. Um clarão de luz explode nas águas do lago e faz vibrar as cores, matizes e texturas nas diversas espécies de flores que desabrocham no parque. Você mergulha o pincel num pequeno copo de água tépida, tirada daquele mesmo lago. Com movimentos ágeis de espadachim, meneia as macias cerdas num delicado estojo de aquarela e, num gesto, como que roubando um naco da natureza, transfere toda aquela harmonia para o papel à sua frente. Seus movimentos são vigorosos e seguros e sua obra tem uma concepção única, onde as elípses se entrelaçam.
Você é um ilustrador. E dos bons.
O povo à sua volta está estupefato com tamanho talento.
A vida é bela.

Capítulo I

Dez.2003:

Você já tem algum nome no mercado e é chamado pela editora A (que é grande), pra fazer um trabalho legal por um preço merreca ( R$ 142,85 por pg.). Acha que foi bem pago.

Jan.2004:

Seu nome vai conquistando o mercado; está ganhando fama de quem trabalha por prazer e nem liga pra tabelas; agora é chamado pela editora B (que é pequena), pra fazer um trabalho legal, novamente  por um preço merreca.
Só que os caras te falam:
-Não somos grandes como a empresa A, então nossa tabela é R$ 100,00 por pg.
Você fica satisfeito, pois o trabalho é legal.

Fev.2004:

Você já consolidou seu nome como cara que topa tudo por prazer, e é chamado novamente pela editora A (que é grande), que vem com esse papo:
– Ô meu! tem um trampo legal aqui, só que pesquisamos o mercado e o nosso novo preço de tabela é de 100 “reau”. Topa? E você topa pois o trabalho é legal, autoral, etc.

Mar.2004:

Você é chamado pela editora B (que é pequena) e o cara te diz :
– Tivemos uma reunião de diretoria, o chefe tá puto, disse que estamos pagando como empresas grandes, o que é um absurdo, pois somos pequenos. Ameaçou com cortes; então mudamos as tabelas. Agora é 70 “pau” a página dupla. Quer ou não quer? Se não quiser, tem quem queira – diz polidamente. Você topa, afinal, é um trampo legal, autoral, concepcional, etc.

Abr.2004:

A editora A (que é grande), te chama. No elevador do prédio você encontra
um velho amigo – que “virou” ilustrador depois de ter sido mordido por um, numa noite de lua cheia, durante o lançamento do Corel Pau! 32.3 – e ele te diz sussurrando ao pé do ouvido:
– Putz! Você viu como o mercado tá uma merda? Tem cara de nome que tava ilustrando pg. dupla por 70 “paus” !!! Isso foi no mês passado, porque a tabela agora é R$45,00, a dupla. Eu ainda não tenho nome como você, mas consegui negociar uma dupla e mais 86 vinhetas por R$ 49,99. Legal né? É pruma matéria sobre a Batalha dos Guararapes, tem pesquisa de época…

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